histórias para ben dormir

As primeiras palavras.

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Filho,

suas primeiras palavras não foram nem “mamãe” e nem “papai”. Esse é o doce som da poesia para pais de primeira viagem, e a pílula dourada em livros de puericultura (não se preocupe, filho, essa é apenas uma palavra difícil que as pessoas usam para se referir a estudos, técnicas e o que mais exista sobre a criação de um bebê) e revistas da área, que deveriam (na minha nada humilde opinião) ser classificados como livros de ficção. A vida real é bem diferente desse pacote completo de expectativas que está à venda no mercado. E isso não é ruim. Muito pelo contrário!

As suas primeiras palavras são a maior representação dessa sua pequena personalidade que está em formação. E você é um serzinho único. Por isso mesmo suas primeiras palavras também foram.

Tirando a mistureba de sílabas com as quais você se divertia quando começou a balbuciar, a primeira delas que usou de forma consciente e a seu favor foi: “nã”. Acompanhada do balançar de cabeça de um lado para o outro. “Nã” para a papinha. “Nã” para o trocador. “Nã” enquanto eu tentava colocar você para fazer um cochilo à tarde. E eu entendo você perfeitamente meu filho. A vida nos impõe tantas tarefas, rotinas e regras, que precisamos dizer um “nã” para ela de vez em quando.

A segunda palavra que você aprendeu a falar foi “neném”. Mas você não a usava (e não usa) para se referir a outros bebês. Você sabe que aqui em casa (e no berçário) você é o neném. E quando quer colo, você se arrasta até os meus pés e fala “neném”. Quando estou tentando desesperadamente fazer você comer a papinha sem obter sucesso, no auge do seu protesto você grita “neném”. Mas em casa nós nunca chamamos você de “neném”, como é que você aprendeu uma palavra que nunca usamos?

Um dia, entre as muitas idas e vindas do berçário, comentei que as suas primeiras palavras não foram as populares “mamãe” e “papai”. E descobri que, para as berçaristas, você era o “neném”. Como era o bebezinho mais novo do berçário, elas sempre se referiam você como “neném”, principalmente quando precisavam protegê-lo das crianças maiores.

– Não pega essa brinquedo porque é do neném.

– Cuidado! Não pode correr perto do neném.

E como você é um rapaz muito inteligente. Logo notou que o “neném” conseguia uma atenção e cuidado especiais. E passou a usar essa reivindicação dentro de casa também.

Você é meu neném. Por enquanto. E vou aproveitar cada pequeno dia dessa etapa. Enquanto você cresce e se prepara para ganhar o mundo.

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