histórias para ben dormir


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Manifesto por um parto com mais sorriso e com mais amor.

Filho,

hoje em dia existe um debate muito grande sobre como é o parto “ideal”. Bem, na verdade tudo o que é ideal ou idealizado não existe, porque foi concebido apenas no mundo das ideias. Quando o que é ideal vem para o mundo real, termina mudando um pouco para se adequar às limitações do mundo em que vivemos.

Pois bem, hoje em dia as pessoas acham que o parto ideal é o parto normal (quando não é preciso abrir a barriga da mãe para tirar o bebê) e humanizado. E “humanizado” é uma palavra que fica tão esquisita nesse contexto, pois faz parecer que os outros tipos de parto são feitos por seres que não são humanos.

Eu acredito, filho, que o melhor tipo de parto é o parto com o amor.

Não importa quando, como, nem onde. A única coisa importante mesmo, é que tenha muito amor. E no seu nascimento, filho, isso não faltou. Teve até risada.

Eu e seu pai simplesmente amamos o médico que escolhemos para acompanhar a sua chegada ao mundo. Passei por tanta dor durante a tentativa de indução do parto que morri de amores quando vi o anestesista. Meu amor pelo seu pai também só cresceu, de vê-lo ao meu lado mesmo durante o meu momento de teimosia, em busca da descoberta do que é uma contração, e da certeza de que não havia mesmo nada nesse mundo que fizesse você nascer de parto natural.

E enquanto o médico tirava você de dentro da minha barriga, eu, seu pai e ele dávamos risada da minha teimosia. Quando você nasceu, a primeira coisa que o médico me disse foi que você era lindo. Eu dei risada, porque sei que ele diz isso para todas. Mas ele me garante que não.

Hoje eu tenho a mais absoluta certeza, filho. O médico estava certo. Sim, você é lindo.

 

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O nascimento.

Filho,
cheguei à conclusão de que você não nasceu. Você foi nascido.

Os bebês que nascem são aqueles que, no final da gestação, descem e encaixam a cabeça na bacia das suas mães, procurando uma luz no final do túnel em que ficaram guardados durante nove meses. A gravidade também dá uma forcinha nessa hora e, aos poucos, o túnel aumenta de tamanho para dar passagem a esse pequeno ser que não vê a hora de nascer. Esses bebês pedem ao mundo e ao corpo de suas mães para serem livres, eles têm a certeza de que estão prontos, e dessa certeza nasce a mágica das contrações.

Pois bem, com você e comigo nunca aconteceu nada disso. O que para algumas mulheres é o grande sonho, e para outras é um filme de terror envolto em dor, para mim simplesmente nunca foi nada. Passadas as 40 semanas de gestação, eu nunca tive uma contraçãozinha para contar história. Você ficou semanas de cabeça pra baixo dentro da minha barriga, mas nunca fez força para descer ou para sair. O túnel que leva você à liberdade ficou pequeno, bem estreitinho, e nunca aumentou de tamanho. Não havia luz para você no final desse túnel.

Junto com o desespero da quadragésima primeira semana, vieram as caminhadas de uma hora na esteira, para ver se a tal gravidade dava uma forcinha para você e para mim. Tivemos sete dias de comida picante em casa, com muito curry, pimenta e chá de canela. Virei índio (ou melhor, índia) e passei a assistir televisão de cócoras. Durante o banho, rebolava o quadril para um lado e para o outro. Mas já diz o ditado que a gente faz planos e Deus dá risada. Nesse caso, acho que quem dava risada era você, de todas as maluquices que sua mãe fez, em busca de um parto natural.

Eu achei que a escolha do parto fosse minha, filho. Mas hoje acredito que essa escolha foi feita por você. E você não queria fazer força para nascer. Você achava que ainda não estava pronto (será?), mas a nossa data de validade já havia vencido. E no que seria a nossa última consulta com o médico de fazer bebês nascerem, veio a pequena descoberta que mudaria nossas vidas para sempre (e a do seu pai também). A minha bolsa havia rompido e eu nem me dei conta. O líquido que mantinha você vivo estava escapando bem aos poucos, e a sua cabecinha não estava mais protegida. Tinha chegado a hora de você nascer. Mas como aparentemente nem você e nem eu estávamos prontos para isso, o médico precisou abrir a minha barriga para tirar você lá de dentro e, em vez de você nascer, você foi nascido por ele.

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Sintomas.

Filho, a gravidez vem acompanhada de uma série de sintomas que mostram para a mulher que aquele corpo não é só dela.

Muito antes de saber que você já existia dentro de mim, um desses sintomas mudou minha rotina completamente. Mas eu nunca poderia imaginar que já era você (até porque, como já comentei, você tem uma mãe um pouco desligada).

E durante vários meses passei os finais de semana inteiros dormindo, enquanto de segunda a sexta fazia o sacrifício extremo de me manter acordada durante o horário de trabalho. Céus, se não estivesse grávida acho que seria demitida por justa causa.

Você era tão pequeno ainda, mas já estava fazendo uma grande mudança na minha vida.

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Chegada.

Filho,
você veio ao mundo de um jeito completamente diferente do que eu havia planejado & imaginado e já de cara me trouxe esse grande aprendizado.
Durante toda a gravidez eu sonhei com você vindo ao mundo com um parto normal. A genética estava a meu favor (pois todos os partos da sua e da minha avó foram normais) e a anatomia também (a cada consulta o obstetra confirmava que tudo se encaminhava perfeitamente para um parto normal).
O prognóstico é que você chegaria quinze dias antes da data prevista, em meados de novembro. Mas já diz o ditado que a gente faz planos e Deus dá risada. Nesse caso, quem dava um sorrizinho maroto dentro da minha barriga era você.
No final das contas, eu nunca tive uma contraçãozinha e não passei de 1cm de dilatação. Fiz vários exames para esperarmos o máximo possível para você nascer. Passamos da data oficial prevista para o parto e, em um exame de rotina, o obstetra percebeu que eu estava perdendo líquido. A bolsa havia rompido muito pouco e eu não tinha percebido. Era muito tarde para um parto normal mas bem mais cedo do que havíamos previsto para uma cesárea. Depois de mais de nove meses de espera, eu não podia colocar você em risco por causa de um simples desejo meu. Fomos em casa pegar a sua e a minha mala e dirigimos para a maternidade com uma ansiedade palpável no ar, seu pai, sua vó Marina e eu.
Ainda tentamos induzir o parto normal. A maior dor que eu senti e uma hora de agonia para o seu pai.
E assim, no dia dois de dezembro de dois mil e treze, às onze e meia da noite, você nasceu de uma cesareana tranquila. O único choro na sala de cirurgia foi o seu, e a vida se encheu de alegria.
Seja bem-vindo a esse mundo, meu filho.

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38 Semanas.

Filho,

quanto maior você fica dentro da minha barriga, mais você faz festa e se mexe sem parar. Me pergunto se é apenas você tentando se espreguiçar dentro de um espaço tão diminuto e apertado ou se é uma forma de nos mostrar que você também não aguenta mais esperar para sair.

E enquanto eu e seu pai organizamos a trilha sonora da sua chegada, escolhemos uma música-tema para essas noites de sacolejo ainda dentro da barriga.

 


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33 semanas.

Filho, eu estava organizando suas roupinhas e o seu quarto com bastante calma, afinal de contas, você só deve sair da minha barriga no final de novembro.

Sem pressa para o berço chegar. Sem correria ou ansiedade. Estava lavando primeiro as roupinhas maiores, para guardar no fundo do armário, e deixando as peças de recém-nascido para o final, assim ficam “fresquinhas” esperando por você.

Eis que a tia Alessandra, que só estava esperando a Júlia chegar no final de Outubro, entrou em trabalho de parto duas semanas atrás. E foi para a maternidade sem malinha e sem berço no quarto para a volta.

É filho, eu posso planejar o seu quartinho, mas por mais que eu queira, a sua chegada vai ser do jeito e no momento que você decidir. Então hoje, é assim que o seu quarto está: de pernas para o ar com uma mãe desesperada tentando lavar o maior número de roupas possível.

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Por você.

Filho, depois que sair da minha barriga e for bem mais velho (mas com sorte, mais novo do que eu sou hoje) você vai se dar conta de que as pessoas criam regras e normas para viver em harmonia (o nome técnico para isso é “sociedade”), mas elas terminam se empolgando demais e criam regras para coisas que deveriam ser livres: como os sonhos e os sentimentos. A gravidez e a espera de um filho terminam entrando nesse pacote também (infelizmente).

Cada pessoa é única. E por isso, cada gestação é única também. Aliás, gerar um filho é um processo ainda mais único se pararmos para pensar que ele é feito da combinação de três pessoas (você, eu e seu pai). A matemática consegue provar essa teoria maluca da sua mãe, me lembre de mostrar para você quando a escola ensiná-lo a fazer análise combinatória e a calcular probabilidades.

Mas voltando ao assunto da sua espera… As pessoas, as revistas, os filmes e a sociedade criaram a regra de que estar grávida é uma dádiva de Deus e algo maravilhoso. Isso vai parecer muito duro, filho, mas para mim acho que não é. E entenda que estar grávida também não tem absolutamente nada a ver com ter um filho. Muitos casais que nunca engravidaram possuem filhos. Assim como muitas mulheres que engravidaram não possuem filho algum.

Estar grávida, para mim, é estar em uma montanha russa. Tem sido difícil. As mudanças repentinas de humor, as brigas com o seu pai, as roupas que não entram mais (e fico me perguntando se algum dia irão servir em mim de novo), a distensão muscular que não me deixa mais levar a balofa para passear, o rendimento no trabalho que cai, a barriga enorme que não me deixa mais dormir, as costas dóem, a azia leva o apetite embora (mas não a fome), o enjôo do começo que tinha ido embora agora resolveu voltar e mais uma infinidade de mudanças que mostram que o meu corpo não é mais só meu, ele é seu também. e isso, filho, é o que faz tudo valer à pena.