histórias para ben dormir


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O dia em que você parou de mamar.

Filho,

depois de ler uma vasta literatura sobre o assunto, durante muitos meses me iludi achando que ser mãe era algo simples, fácil e intuitivo. Mas a verdade é que a maternidade é cheia de mistérios, e trouxe para a minha vida muitas dúvidas. Não apenas no sentindo das incertezas que fazem parte desse pacote emocional complexo que acompanha os bebês, mas dos causos sem solução e sem sentindo que passaram a acontecer vez por outra em nossas vidas. O primeiro de todos que até hoje me perturba, sempre que lembro da sua chegada ao mundo, foi o parto. Afinal de contas, porque euzinha nunca tive uma contração, nunca tive dilatação, nunca entrei em trabalho de parto, você nunca “desceu” nem “encaixou” mesmo estando de cabeça para baixo? Foram quase 42 semanas de espera pelo trabalho de parto que nunca veio. Mas o post de hoje é para contar um novo “causo” para você, e não relembrar antigos.

Até os seus 4 meses de vida fora da barriga, você chorava tanto, mas tanto, que eu e seu pai evitávamos ao máximo receber qualquer visita. Eu sempre ficava aflita, sem saber se fazia sala para os convidados ou se me trancava no quarto para tentar acalmar você. Os visitantes também iam embora muitas vezes com um sentimento de frustração pesando no peito, afinal de contas, o motivo da visita era sempre conhecer você, mas no emaranhado de cólica e choro que fez parte da sua vida nos primeiros meses, você não conseguia se fazer conhecer. Some a isso a insegurança de uma mãe de primeira viagem, que nunca sabia se estava fazendo a coisa certeza e via o seu choro como um atestado de incompetência com firma reconhecida no cartório (da vida). Mas muitas pessoas queridas queriam conhecer você e levar um pouco de amor para iluminar os seus dias. Então, a cada final de semana, abríamos mão das nossas certezas para viver esses pequenos encontros caóticos.

Você tinha quase dois meses quando, em uma manhã de sábado, recebemos a visita da @tetetedde. Ela trouxe roupinhas tão lindas para você, e uma saudade enorme, daquelas que a gente só percebe quando dá um abraço, mas quando começa a conversar parece que o tempo nunca passou. Você chorou um pouco (muito) no final. E depois, quando chegou a hora de mamar, se pôs a chorar também. Como choro de bebê não vem acompanhado de legenda, entendi que era um choro de quem não está com fome para mamar, e tentei seguir com a rotina do restante do dia.

À tarde recebemos mais uma visita, da sua futura tia preferida (acho eu) @azaroseuquerida_ e o namorido dela @andrefugitivo. Você ganhou a sua roupinha mais descolada de todas, eu ganhei o maior abraço do mundo e o presente que só uma melhor amiga consegue descobrir que você precisa. Ficamos minutos que pareciam dias em um revezamento de sala / choro / colo / conversa / visita. Na hora de mamar, parecia que em vez de oferecer o peito e eu estava oferecendo uma sova para você. Depois que as visitas se despediram, com um misto de pena e desespero (não sei se por mim ou por você) no olhar, comecei a fazer o check-list em voz alta com seu pai: peito (ok), sem bolhas ou feridas (ok), com bico (ok), com leite (ok), fácil de sugar/sair (ok), sem mastite ou empedramento (ok). Mas a partir daquele momento, todas as vezes que ofereci o peito para você, em vez de mamar você berrava. Tentei mudar de posição. Tentei fazer o leite jorrar na sua boca. Tentei diminuir o espaço entre as mamadas. Depois tentei aumentar. O mais misterioso é que, no exato momento em que eu tirava você na posição de amamentação e afastava do peito, você parava de chorar. Você não tinha nenhum machucado na boca, aceitava a chupeta com alegria, mas mamar que é bom (e importante) nada…

Junto com o sol se pôs a minha esperança e comecei a ficar realmente preocupada. Um dia inteiro sem comer é muita coisa, e agora mais uma noite? Para descobrir se o que causava tanto desconforto era mamar no peito ou a ingestão do meu leite, ordenhei o leite (momento mãe vira vaca e perde a dignidade que nunca teve) e coloquei em uma mamadeira. Você tomou tudo em fração de segundos! E depois de uma mamadeira e meia, dormiu feliz. Mas claro que uma hora depois acordou esfomeado de novo e muito bravo… Eu e seu pai passamos a noite inteiro acordados em um revezamento enlouquecedor: bebê acorda, mãe oferece o peito, bebê chora, mãe insiste, bebê faz um escândalo, mãe desiste, pai acalma bebê, mãe vira vaca e ordenha o leite, mãe oferece a mamadeira, bebê mama, pai esteriliza a bombinha elétrica, mãe coloca bebê pra dormir, pai lava a esterilizar a mamadeira, pai e mãe se olham estatelado, bebê acorda e começa tudo de novo.

No domingo convoquei uma junta médica pelo celular e o parecer de todos eles foi o mesmo: deixar você o dia inteiro com fome, oferecendo só o peito, para você voltar a mamar nele. Com o coração apertado decidi que até as 19h do domingo você só mamaria se fosse no peito. Nada de mamadeira até esse horário. E foi então sem aviso prévio, sem briga, sem birra, sem choro, que você voltou a mamar no peito na manhã do domingo. Parecia até mágica. O problema foi resolvido, mas o mistério não.

Na semana seguinte fomos ao seu pediatra para ele examiná-lo, mas nunca conseguimos descobrir porque naquele sábado quente de janeiro você decidiu parar de mamar.

 

Processed with VSCOcam with m5 presetQuando parou de mamar você era desse tamanhinho. 

 

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Você um pouco maior com a roupinha que ganhou da tia @azaroseuquerida_

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Descombinando.

Filho,

quando eu criei esse blog imaginei (lá do alto da minha ingenuidade sobre mim mesma) que conseguiria ser disciplinada para escrever pelo menos um post por semana e contar para você sobre tudo o que aconteceu nos seus primeiros anos de vida na ordem em que as coisas realmente se sucederam no tempo.

Mas o amor não entende nada de disciplina, muito menos a agenda de uma working mom (de dois, porque ainda temos a balofa para cuidar, sua irmã adotiva primogênita). E as lembranças de uma vida são na verdade tecidas em um emaranhado de dias e de sentimentos, que se confundem no tempo, às vezes brotam e outras vezes somem, sem nenhuma explicação ou lógica aparente.

Então agora vamos deixar tudo descombinado e trazer um pouco mais de leveza para as nossas vidas.

Made with Repix (http://repix.it)


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O primeiro dodói.

Filho,
o seu primeiro dodói doeu pra caramba, tanto em você quanto em mim.

Uma semana antes do meu aniversário e do Dia das Mães você ficou doente pela primeira vez. Uma gripe forte que você pegou do seu pai, apesar da minha insistência para que ele se vacinasse contra a gripe (já diz o ditado que santo de casa não faz milagre, portanto minhas súplicas foram em vão). Uma doença tão boba e comum, que ainda vai fazer parte das nossas vidas tantas vezes, mas que transformou as nossas noites em um verdadeiro filme de terror quando deu as caras pela primeira vez.

A luz do dia tem uma leveza que consegue aplacar até os vírus mais terríveis. E assim sua gripe chegou de mansinho em um sábado à tarde, com nariz escorrendo e aquela tosse “quebrada” de quem tem muito muco e vontade de ficar bom logo para colocar pra fora do peito. Sua pediatra estava viajando mas o profissional que ficou de sobreaviso me passou por telefone as orientações e cuidados que eu deveria ter com você: lavar o nariz com Rinossoro e fazer inalação com soro fisiológico. Um tratamento simples, que encheu meu peito de otimismo. Afinal de contas, se os cuidados são assim tão simples, logo, logo essa gripe vai embora e a vida melhora por aqui.

Mas junto com o sol se pôs a calmaria. E à noite não teve Rinossoro nem inalação que fizesse o seu choro passar. Soluços de nariz entupido, cansaço de quem teve o sono espantado sem querer, um berro bem profundo de quem não sabia o que estava acontecendo e acabara de descobrir como um ser vivo tão pequeno como um vírus pode causar tanto transtorno e mal estar. Você chorava tanto, e tão forte, que já tarde da madrugada não me restou mais nenhuma opção, a não ser chorar com você. De cansaço. De dor. De tristeza.

Coisa ruim é a gente não poder proteger quem tanto amamos.

Durante a noite inteira, lembrei dos seus dias de cólica e do crédito que você tinha (e tem) comigo, crédito de abraços e de colo. E embalei você a noite inteira, na esperança de que o vírus encontrasse o meu abraço apertado e decidisse se mudar de você para mim.

Eu sei que ainda vamos ter muitas noite em claro pela frente, mas pelo menos agora você e eu já estamos um tiquinho mais fortes.

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Nos bastidores do amor

Filho,

esse final de semana uma amiga do seu pai me perguntou que tipo de pai ele era, se ele já havia trocado fralda, dado banho e como ele cuidava de você. Quando comecei a responder as perguntas, me dei conta de que para ela (a amiga) parecia que o seu pai não era tão presente, já que até hoje ele nunca deu um banho em você, só trocou fralda uma vez e não dá de mamar na mamadeira. Aí me dei conta de que muitas vezes você pode não vê-lo nesses momentos, mas saiba que ele está sempre presente, cuidando de você nos bastidores.

Quando você toma um banho quentinho, você pode só ver a mamãe passando o sabonete em você, mas foi o seu pai quem esquentou a água para ficar na temperatura certa e, quando você já está pronto para nanar, é ele quem entra com cuidado no quarto, bem devagarinho para não fazer barulho, e leva a toalha molhada e as roupas sujas para serem estendidas no varal e limpas.

E quando a mamãe vai dar mamar para você no final do dia, quase sempre quem prepara a mamadeira é o seu pai, para que eu possa ficar um pouquinho mais com você e acalentar o seu choro de fome, para não crescer e virar um choro de raiva.

Por isso, quando procurar pelo seu pai, se ele não estiver por perto cuidando de você, pode ter certeza de que ele está nos bastidores, com o peito cheio de amor e um cisquinho de lágrima nos olhos, fazendo algo que você muitas vezes não vê ou nem sabe o que é, mas vai tornar o seu dia melhor, e o meu também.

Porque amor a gente não precisa ver, é só fechar os olhos e sentir.

 

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Mais liberdade, por favor.

Filho,

uma das maiores liberdades que você pode ter na vida é a liberdade para mudar de opinião. Muitas pessoas acham que mudar de opinião é um sinal de fraqueza, quando na verdade esse é um sinal de fortaleza e sabedoria. Só as pessoas muito seguras de si conseguem mudar de opinião e se abrir para o aprendizado e a amplitude que um novo ponto de vista carrega em si mesmo.

É tão mais seguro ficar ensimesmado na caixinha da sua própria, única e primeira opinião. Eu mesma fazia isso, filho, até bem pouco tempo atrás. Mas foi só até você nascer. Porque depois, com você em meus braços, eu descobri que nunca mais seria dona de uma verdade absoluta. Certo e errado são palavras que deixaram de fazer parte da minha vida depois que você veio fazer parte dela.

Eu já fiz e desfiz tantas coisas, em busca do melhor caminho para cuidar de você e da nossa família. Hoje, em vez de querer ser a dona da verdade, eu quero conhecer todos os pontos de vista e possibilidades possíveis, para ter a segurança de fazer a melhor escolha para você, para mim, para seu pai e nossa querida balofa. Mas mesmo as melhores escolhas podem mudar em fração de horas ou semanas. E é isso o que está acontecendo com a nossa família agora.

Quando você estava na barriga, eu tinha certeza absoluta de que jamais teríamos uma babá para ajudar a cuidar de você. Depois vieram os choros infinitos ao quadrado das cólicas e as inseguranças que acompanham os pais de primeira viagem, então passei a ter a certeza de que seria melhor para você ter uma babá, que trouxesse um pouco de experiência e calma para os seus dias. Ela veio (e devo muito dessa primeira e boa mudança a seu pai) trazendo conforto para o seu choro que não parava nunca, muito carinho com você, paciência com a balofa, e generosidade para compartilhar comigo um pouco do seu conhecimento.

Mas o tempo tem o poder mágico de mudar o mundo, e nessa mudança percebi que estava chegando o momento da sua babá partir. Essa hora já chegou, depois de um punhado de desentendimentos, falta de hora para as suas mamadas, tardes carregando você no colo para assistir a novela, um pouco de folga daqui, outro pouco de descrença dali e a confiança foi para o saco. Nada muito grave, filho. Mas quando deixamos de confiar nas pessoas, fica impossível mantê-las em nossas vidas. E agora estou em busca de um novo lugar ao qual possa confiar você. Com quem possa compartilhar essa encantadora e desafiadora missão que é cuidar de você ❤


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Que segure o chororô.

Filho,

durante seus primeiros meses de vida aquele oásis imaginário das 18h por dia que um recém-nascido dorme (ou pelo menos deveria dormir) não passou de uma miragem dos livros de auto-ajuda e baby-ajuda.

Você chorava, filho. Sempre muito e com tanta força que ficávamos sem saber o que fazer. Durante semanas esse era o atestado da minha mais completa incompetência como mãe. Porque você chorava para trocar fralda, chorava para tomar banho, chorava, chorava e chorava. As tais sonecas não passavam de lenda nem dos 15 minutos. E quando você abria o berreiro, até a balofa ficava desbaratinada.

Sua avó Marina insistia em me mostrar que seu choro era de cólica, que a sua perninha não parava de sacudir, e se eu colocasse a mão na sua barriga iria senti-la borbulhar por dentro. Mas na bibliografia que li (e ela foi vasta), constava que essa tal de cólica só acontecia no final do dia, ou em pequenos momentos pontuais. O pediatra apenas me consolava dizendo que depois dos três meses tudo ia melhorar, mas três meses era tempo demais para mim (e para você também).

Com a ajuda da faxineira que cuidava da nossa casa durante essa época, descobri que você se acalmava um pouco quando era sacudido (não filho, não era embalado, era sacudido mesmo, com firmeza e um cadinho de força). Desde esse dia, eu e você tivemos longas horas dançando forró pela casa. E seu pai muitas vezes dançava tango com você nos dias mais críticos.

Fiz muito charutinho. Fiz muita compressa quente. Fiz muita chupeta com funchicória. Fiz muita colherzinha com colic calm. Fiz muita massagem na sua barriga. Fiz muito movimento de bicicleta com as suas pernas. E em troca de tudo isso, você fez algumas sonecas curtas em cima da minha barriga ou na do seu pai. Aliás, a barriga do seu pai se tornou a sua morada e a sua cama durante toda a semana em que ele ficou em casa com a gente.

Na época eu achava que isso de cólica era pura invencionice das pessoas, quando não sabiam o motivo de um bebê tão pequeno e bem alimentado chorar tanto.

Hoje, quando olho pra trás, eu tenho certeza de que aqueles seus choros eram sim de dor. Porque se adaptar a esse mundo em que vivemos não é uma tarefa das mais fáceis, filho. É doído pra c******! Ah seu eu soubesse disso quatro meses atrás, teria te dado ainda mais colo e carinho. Então como não posso voltar no tempo, lembre  sempre que você tem colo e carinho de crédito com a mamãe, para usar sempre que precisar.

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Manifesto por um parto com mais sorriso e com mais amor.

Filho,

hoje em dia existe um debate muito grande sobre como é o parto “ideal”. Bem, na verdade tudo o que é ideal ou idealizado não existe, porque foi concebido apenas no mundo das ideias. Quando o que é ideal vem para o mundo real, termina mudando um pouco para se adequar às limitações do mundo em que vivemos.

Pois bem, hoje em dia as pessoas acham que o parto ideal é o parto normal (quando não é preciso abrir a barriga da mãe para tirar o bebê) e humanizado. E “humanizado” é uma palavra que fica tão esquisita nesse contexto, pois faz parecer que os outros tipos de parto são feitos por seres que não são humanos.

Eu acredito, filho, que o melhor tipo de parto é o parto com o amor.

Não importa quando, como, nem onde. A única coisa importante mesmo, é que tenha muito amor. E no seu nascimento, filho, isso não faltou. Teve até risada.

Eu e seu pai simplesmente amamos o médico que escolhemos para acompanhar a sua chegada ao mundo. Passei por tanta dor durante a tentativa de indução do parto que morri de amores quando vi o anestesista. Meu amor pelo seu pai também só cresceu, de vê-lo ao meu lado mesmo durante o meu momento de teimosia, em busca da descoberta do que é uma contração, e da certeza de que não havia mesmo nada nesse mundo que fizesse você nascer de parto natural.

E enquanto o médico tirava você de dentro da minha barriga, eu, seu pai e ele dávamos risada da minha teimosia. Quando você nasceu, a primeira coisa que o médico me disse foi que você era lindo. Eu dei risada, porque sei que ele diz isso para todas. Mas ele me garante que não.

Hoje eu tenho a mais absoluta certeza, filho. O médico estava certo. Sim, você é lindo.

 

Made with Repix (http://repix.it)

 

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